Você consome notícias ou elas estão consumindo você? Como se informar sem adoecer: os perigos do excesso de notícias negativas para...


Por Solange Mesquita Gomes -terapeuta online
Percebo que muitos não sabem como lidar com traumas emocionais sem se atolar na dor ou cair na armadilha da positividade tóxica.
Vivemos em uma cultura que frequentemente nos convida a “pensar positivo”, “seguir em frente” e “agradecer por tudo” como se isso fosse sinônimo de saúde mental e inteligência emocional. Embora esse tipo de estímulo possa trazer leveza em muitos momentos, quando usado como regra rígida, ignorando as nuances da dor humana, ele se transforma em uma armadilha emocional que bloqueia o autoconhecimento e o verdadeiro processo de cura: a positividade tóxica.
Significa abafar o sofrimento, ignorar a tristeza, negar a frustração. É dizer para alguém que acabou de perder um ente querido que “foi melhor assim”; ou, a quem está passando por um divórcio doloroso, que “agora é só aproveitar a liberdade”. É forçar um sorriso quando o coração está em pedaços.
Muitas vezes, usamos essa “alegria compulsória” como mecanismo de defesa. Nos convencemos de que está tudo bem quando, na verdade, estamos soterrando emoções legítimas. Emoções que, se não forem reconhecidas, compreendidas e elaboradas, adoecem o corpo e a alma. Essa dinâmica está, inclusive, entre os fatores que contribuem para doenças autoimunes.
Há também quem fique preso às mágoas do passado, repetindo histórias difíceis como justificativa para o que não anda no presente. É como se disséssemos: “Se meus pais tivessem sido diferentes, minha vida seria outra”. Não é raro ver pessoas se autoboicotando, inconscientemente punindo os pais, os ex-companheiros ou a si mesmas, permanecendo presas ao que já passou.
Esse ciclo de estagnação, onde a dor não é nem elaborada nem superada, torna-se um obstáculo silencioso. E a vida, com tudo que tem de breve e sagrado, vai sendo adiada.
Na psicologia positiva baseada em evidências, e não na autoajuda rasa, não se trata de ignorar a dor ou repetir mantras vazios. Trata-se de reconhecer a realidade com honestidade e coragem. É olhar para o que foi, aceitar o que doeu, acolher o que ficou... e seguir.
Aceitar não é aprovar. É simplesmente reconhecer: “Foi assim. Machucou. Me marcou. Mas não precisa mais me paralisar.”
É quando olhamos para a criança ferida dentro de nós e dizemos: “Agora eu cuido de você.”
Gosto muito do artista Ney Matogrosso, figura lúcida, corajosa, inquieta. Em sua interpretação da música “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio, ele entrega uma verdadeira narrativa terapêutica.
A performance começa com Ney no escuro, submergindo até um espaço de luz. Ele abre a máscara e começa a cantar um gesto simbólico de libertação, de quebra do silêncio, de afirmação do eu. É como se dissesse: “Chega de me esconder.”
A canção se inicia com dor, julgamento, luto:
“Há quem diga que eu dormi de touca,
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga,
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira...”
Nesse trecho, ele encara o que dizem sobre ele e o que ele próprio sente: frustração, vergonha, vulnerabilidade. Mas há uma virada poderosa:
“Eu, por mim, queria isso e aquilo,
Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso...”
Aqui, ele se apropria de si mesmo, dos seus desejos e contradições. Ele se nomeia. E avança:
“Eu quero é botar meu bloco na rua,
Gingar, pra dar e vender!”
Essa música já acompanhou muitas conversas terapêuticas com meus clientes especialmente com aqueles marcados por injustiças: filhos de pais abusivos, vítimas de traições, abandonos silenciosos, demissões abruptas ou relações em que foram diminuídos.
A canção nos lembra que o luto tem seu tempo mas não é morada. Processar a dor é fundamental, mas permanecer nela indefinidamente pode se tornar um inferno.
Que possamos reconhecer o que sentimos sem pressa de “resolver”, mas também sem medo de recomeçar. Que, depois de tudo, tenhamos a coragem de botar nosso bloco na rua com a dor acolhida, a identidade reconstruída, os aprendizados incorporados e o coração reaberto para viver.
Não esperar o próximo bloco passar, mas ser quem decide, com intenção e presença, colocar seu próprio bloco na rua e colaborar ativamente para que a vida aconteça.
🎧Ouça a música aqui.
Solange Mesquita Gomes é terapeuta online, mestra em Psicologia, com formação em neuropsicologia, EMDR, psicodrama e constelação familiar. Atua com abordagem integrativa e sistêmica, apoiando pessoas em processos de dor, reconstrução e fortalecimento emocional, especialmente brasileiros que vivem no exterior. Escritora e palestrante, é apaixonada pelo poder simbólico das histórias e pela escuta que transforma.